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Por Dra Kathy Marcondes
Uma das mais antigas tradições humanas consegue atravessar os tempos, as diferentes religiões, as modificações tecnológicas e até os processos de massificação cultural. Essa tradição, plena de significações das mais profundas, é a da peregrinação.
Os mulçumanos devem ir a Meca pelo menos uma vez na vida. Os cristãos vão ao Santuário de Aparecida do Norte, Roma, Santiago de Compostela, Fátima, Lourdes e outras tantos destinos sagrados. Os judeus peregrinam até Jerusalém. Os hindus buscam o solo santificado de Varanasi ou as águas do Ganges. Os capixabas podem subir o belíssimo Convento da Penha ou caminhar até Anchieta.
De um ponto de vista psicológico podemos considerar que talvez seja o caráter transformador dessas viagens que as fazem permanecer no íntimo das mais diferentes tradições religiosas e em algumas tradições exotéricas.
Talvez as estruturas psíquicas da humanidade reforcem, em cada um de nós, esse desejo íntimo de percorrer um caminho que nos transforme. Então a tradição permanece, ganhando mais e mais força.
O peregrino que busca um lugar sagrado se dispõe a sair de sua rotina em busca de um objetivo pessoal e espiritual através de seu próprio movimento ao encontro deste sagrado. Ainda que esteja valorizando o que há de sagrado fora de sua rotina (que não precisa ser necessariamente não-sagrada!) o peregrino acaba se transformando durante o caminho.
"Viagens são assim: oportunidades de iniciação. Essa é a sua magia. (...) A viagem exprime também um desejo profundo de transformação interior que se projeta no desejo da viagem exterior. Representa mais do que um simples deslocamento no espaço e no tempo, a necessidade de experiências novas e renovadoras.(...) Partir para o desconhecido pode ser assustador. Mas, para quem tem na alma a inquietude do vento, o desejo da descoberta supera o medo e instiga a caminhada. Empurra o peregrino em direção a meta sagrada e secreta, seu Sangri-lá pessoal." (PELLEGRINI, Os pés alados de Mercúrio, Axis Mundi, p.13)
O caráter saudável de colocar-se a caminho está no fato de reunir as próprias forças, arregimentá-las para um foco benéfico e partir... querendo voltar transformado e mais fortalecido. Por tanto, a transformação já começou. Troca-se as lamúrias, as lamentações e o dedo em riste para acusar e ferir quem nos feriu, por um movimento de renovação de recursos, pela
permissão que Deus, o Poder Superior, um milagre ou uma dádiva possa nos fazer melhores e mais felizes. Não importa muito no nome que essa intercessão sagrada tenha. O mais interessante da peregrinação é que o peregrino tem de ir buscá-la, mover-se.
Pensando que seu destino final é seu objetivo maior, o peregrino se deixa envolver pelo percurso. Solta momentaneamente seus hábitos mentais, remove-se da clausura dos velhos pensamentos. Enche-se de esperança e caminha. Muitas vezes o peregrino percebe, outras vezes não percebe, que TODA a caminhada é sagrada, não só o endereço da chegada. O estar a caminho
permite que as forças auto-curativas e auto-reguladoras da psique operem a renovação criativa de hábitos, atitudes, ressentimentos, somatizações...
Além da cura pelo caminhar, o peregrino se prepara e se permite, na maioria das vezes, o encontro com o sagrado. A espera vai aumentando a numinosidade do momento. Finalmente, o peregrino cumpre sua peregrinação, chega ao destino.
Estranhezas de todas as formas são relatadas então. Visões, graças, "insight", silêncio interno, sensação de pertencimento ao cosmo, comunhão com Deus, alegria intensa, luzes... Para uns poucos, nada. Infelizmente. Ele não percorreu o percurso.
As palavras para descrever o encontro com o sagrado de um peregrino são muito difíceis. Esses momentos sublimes da vida humana são difíceis de serem decodificados e se muito falamos para torná-los compreensíveis, é muito pouco eficiente o palavrório todo. Berteaux (La voie symbolique, 1978, p.61) escreveu: "Somente há chave que dê o sentido do símbolo para quem compreende a simbólica mítica. Somente há via que conduza ao sentido sagrado do símbolopara quem vive a simbólica iniciática."
Em outras palavras: há coisas que não se pode traduzir em palavras, somente a vivência falaria por si.
E então começa a grande viagem de volta da peregrinação.
Aparentemente tudo está terminado, mas é aí que começa a peregrinação pessoal mais difícil. O objetivo desta peregrinação pessoal de volta para casa é o de incorporar ao antigo, ao conhecido e ao rotineiro o que foi experimentado. Toda a experiência pode se perder ou então renovar a vida, fazer transbordá-la de sentido e paz interior.
O peregrino de novo teme e deve vencer sozinho o seu temor.
Mais uma estratégia altamente curativa da peregrinação: sobrepujar nossos medos. Responder-se.
O que haverá lá na minha volta? Conseguirei manter acesa em mim a lembrança viva de que há renovação, que eu a experimentei e a manterei?
Antecipando a chegada podem surgir sentimentos conflitantes: saudade, angústia, cansaço, força, medo e determinação.
O peregrino contará com todo o esforço de seu psiquismo para incorporar a experiência vivida ao rol de suas novas alternativas e possibilidades. Desde as lembrancinhas da viagem aos amuletos, desde os sonhos às fotografias nos álbuns, desde o recontar infindável ao mais profundo silêncio sobre o ocorrido - cada um está sempre tentando, da melhor forma que pode e conhece - fazer com que a peregrinação marque positivamente a sua vida.
Quando refletimos assim sobre o poder de transformação das peregrinações podemos avançar e declarar que essas viagens podem também ser feitas no mundo interno. Se não somos adeptos das caminhadas nem adeptos de uma religião qualquer isso não precisa nos impedir de experienciar o efeito da peregrinação.
O roteiro pode ser assim simplificado:
Imagine o mais substancialmente possível o seu lugar especial, muito especial, faça-o mais especial ainda.
Desloque-se até lá. Profundamente, com todas as implicações que sua mente puder alcançar. Verifique o que lhe aproxima e o que lhe afasta do que você visualiza e deseja na vida.
Volte a sua casa, a sua vida. Reflita como incorporar o que aprendeu. Solte-se. Experimente.
Particularmente, eu prefiro viajar: nos sonhos, nas férias, nos fins de semana prolongados, nas fugidas do cotidiano sem muitas explicações... O importante é permitir-se contagiar pela sabedoria milenar e arquetípica que nos ensina que há mistérios, saúde e paz em peregrinar.
"Toda a viagem no mundo exterior corresponde, de algum modo, à experiência do mundo interior. E toda a aventura no mundo interior modifica a nossa percepção do mundo exterior. Convém ter sempre isso em mente quando se coloca o pé na estrada, para que o aproveitamento seja o melhor possível. (Pelegrini, p. 15)
Boa viagem, que os deuses o acompanhem... Há uma antiga benção irlandesa que reza assim:
Que o caminho seja brando a teus pés,
O vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre tua face,
As chuvas caiam serenas em teus campos,
E, até que de novo eu te veja,
Que Deus te guarde na palma da mão.
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