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Por Dr. Joel Brinco Nascimento
Reflexões psicológicas sobre “Casa dos Artistas" e “Big Brother Brasil”
Dia desses, conversando cá com meus botões, parei para tecer breves reflexões psicológicas a respeito da emergência televisiva dos tais “reality show”, já que há algum tempo atrás esse tipo de programação seria absolutamente desnecessário, quando a vida ainda era ao vivo, acontecia na rua, quando nos visitávamos mutuamente, crianças brincavam de pique, queimada, ou batiam bola na rua e no início da noite banquinhos eram postos no lado de fora e sem medo, as pessoas conversavam, ou seja, a intimidade acontecia nas ruas, ao vivo e a cores, sem a intermediação dos raios catódicos dos tubos de imagem de nossas televisões.
Lembro ainda de um ritual tipicamente capixaba, em época de semana santa, onde acontecia trocas de pedaços de torta (igualmente capixaba) entre vizinhos, amigos e parentes mais chegados. De alguma forma nossa anonimidade era curtida sem maiores problemas.
Que teria acontecido?
Tais programas, como “No Limite”, versão tupiniquim de “Survivor”, “Big Brother”, “Casa dos Artistas”, surgiram em sociedades fechadas e xenófobas, como a norte-americana e a européia, com suas respectivas patologias, como maluco dando tiro nas pessoas em cima de torre ou atirando dentro de shopping – (Desde quando shopping faz parte da cultura brasileira?), ou seja, grupos sociais onde existe pouco contato, e pouco encontro, e cujo homem coletivo nada tem a haver com o homem coletivo brasileiro. Somos muito melhores que isso.
Alguém saberia responder quem é o presidente dos Estados Unidos? Ganha um doce quem disser Homer Simpsom.
Nesses grupamentos surgiram esses recortes de realidade, onde intimidades são forjadas, mesmo a contragosto de algum ou outro participante, como um laboratório onde de alguma forma a vida ao vivo poderia ser vivida com segurança.
Em se tratando de Brasil, bem ou mal essa realidade foi recortada e transposta para um aparelho de televisão. São programas pós-grade, pós-tranca, pós-cadeados, pós-cães-de-guarda.
Ao procedermos uma breve arqueologia do espaço arquitetônico da família brasileira, no lugar de uma tevê, encontraríamos no início do século XX, um oratório. Estaríamos de alguma forma substituindo Deus, por exemplo, pela transmissão via satélite. Isso nos aponta para uma dessacralização da vida, para uma perda da relação com o Sagrado, e por outro lado, uma atribuição de sagrado aos “famosos” participantes de tais programas. Hoje, aquela pergunta : “_O que você vai ser quando crescer ?”, feita a alguma criança mais crescida, é quase que prontamente respondida com : “_Quero ser uma celebridade” ou então, “_Quero ser como o ator ou a atriz A ou B ! “
Isso é preocupante, na medida em que possibilidades de vida autêntica são substituídas pelo viver em função de um entretenimento vazio.
Para mim, poderia dizer que “Casa dos Artistas seriam duas. Uma, situada no Rio de Janeiro, onde artistas outrora consagrados, vivendo suas vidas de maneira retirada, e que pede socorro para sobreviver. Essa seria a real Casa dos Artistas. A outra seria uma casa, no tempo e no espaço, Machado de Assis e Castro Alves conviveriam com James Joyce e Thomas Mann, na câmera um, Mozart, Chopin ou Wagner estariam ao piano na sala e Jeronimus Bosch conversando com Magritte à beira da piscina! Imaginem uma longa noite ao redor de uma lareira com esses artistas!
Interessante notar o gosto das pessoas assistindo um outro grupo de pessoas em uma penitenciária de luxo, buscando um experienciar do estar vivo!
O ganhador recebe um prêmio, claro.
Mas existe uma esperança, sempre existe e sempre escondida no fundo da caixa de Pandora. Esses programas possuem uma atmosfera meio que onírica, meio que de sonho, e assim poderiam ser lidos como sonho, também. A positividade residiria em um recolhimento da libido cultural investida e reinventarmos ou recriarmos a intimidade outrora perdida, trazendo ganhos para nossa consciência coletiva.
Tenho ouvido as pessoas falarem que a morte é inevitável, inadiável ou inexorável. Mas tenho aprendido que se a morte é inexorável, muito mais a vida. A vida sim, esta é que é inexorável, inadiável. Sempre vencedora, sempre vitoriosa.
Gostaria de dedicar esse artigo à suave lembrança de meu querido pai, Décio Nascimento Filho.
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